Despair

Martim Gomes
2016

 

 

Despair

CENA I

Um bar luxuoso mas moderno. Mesas redondas com candeeiros à meia-luz. O fundo é composto por janelas colossais com vista para o rio. É de noite e só se vêem as luzes da margem sul. No palco estão sete mesas e um balcão. Só uma mesa está vazia, três casais e dois grupos grandes ocupam a fila junto à janela e compõem a sala. Duas mesas estão mais perto do balcão à direita: uma vazia e outra (primeiro plano a partir do público) onde um homem está sentado. Casaco sobre a cadeira, sobretudo e vestuário apropriado para o local. Bebe um uísque em frente a um cinzeiro repleto de beatas apagadas que não fumou, contudo brinca com um isqueiro entre os dedos. O homem está de perfil para o público perdido na sua consciência.

 

(HOMEM) Agradeço que tenhas aceitado o meu convite tão prontamente. Fiquei extasiado quando me telefonaram em retorno: Alice Stock lembrava-se de mim e queria encontrar-se comigo.

Não te apoquentes, este meu ar desleixado não é doença, tenho andado a trabalhar demasiado.

Surpreendida?

É a nova era, aos vinte e cinco anos não posso rejubilar de sucesso como tu, mas ganho o suficiente para alugar um quarto num desses apartamentos para estudantes da Almirante Reis.

É grandinho, consigo ter lá tudo o que preciso…

Quando começaste a cantar? Não me lembro dessa tua vertente, na época em que éramos inseparáveis. Em boa verdade nem queria acreditar quando vi os teus cartazes colados por toda a cidade.
O primeiro que vi, foi um espectáculo e tanto…seguia eu junto ao Campo Pequeno (tinha ido tratar de algo, se bem me lembro), quando reconheço a tua cara numa paragem de autocarro, senti o coração enrolar-se na traqueia, é a Alice (É mesmo ela!), dizia eu entre dentes, mas depois já não sussurrava gritava como um desvairado, todos os lúcidos que passavam entreolhavam-se avaliando a minha loucura.

AHAAHH

Que olhar é esse? Tinha saudades tuas e dessas gargalhadas, a sério!

Sabes há quanto tempo não nos víamos? Não creio que te lembres! Dou-te três hipóteses…
Não, não, também não!

Foram dez anos, uma década, mais do que toda a vida do meu irmão, que Ele’ o tenha descanso…

Não sabias?
Teve um acidente com a mota na Via de Cintura Interna, uma tragédia…

Dois meses em coma sem sinais de recuperação, desligaram-lhe as máquinas a pedidos dos meus pais. Em parte deve-se a isso o meu regresso a Lisboa, não suportava aquele apartamento, o quarto dele parecia um sepulcro ou um qualquer templo sagrado, depois começaram a mal falar-se, nem sequer se aceitavam reciprocamente, as discussões nasciam da maçaneta da porta que emperrou, à lista de compras que não fora cumprida na íntegra.

Triste?

Um pouco, ainda te lembras do Jaime?

Só o conheceste bebé, pois foi…Enquanto tu caminhavas para o sucesso, recuava eu para o abismo.

Estou bem isso é passado, é algo que já não me incomoda. Se me permites, os teus pais? Durante este tempo todo nunca mais soube nada deles, eu sei que a distância não ajudava, mas nem um telefonema, nada? Por vezes penso como a vida poderia ser tão diferente…

Não ligues, estou a divagar.

Gostas do bar? Eu amo-o, mas não venho cá muitas vezes, um pouco caro. Às terças e sextas tem música ao vivo, uma rapariga francesa lindíssima mas que infortunadamente é lésbica. Sabes lá! Sobre o efeito de um dos meus escassos ímpetos de garanhão (contínuo tímido caso não tenhas reparado), assomei-me da formosa criatura que usava um vestido de linho creme enquanto bebia um Gin tónico junto ao piano, durante os dez minutos de intervalo.

Ajeitei o cabelo (como se isso fosse marcar a diferença) e empreendi numa banal conversita, com direito a sorrisos fugazes e a troca de números. Entretanto quando escrevia triunfalmente o meu telefone num guardanapo surripiado às mesas cimeiras aparece uma machona que a beija e abraça desenfreadamente, esmagando todos aqueles ossinhos que me pareciam celestiais. Voltei uma vez, talvez tenham sido duas, também não importa porque ignorou-me num ar envergonhado, não como se tivesse cometido um erro, mas da mesma forma que olhas os cães abandonados, aquele cometimento: tenho imensa pena, não posso fazer nada…

Falemos de ti, basta de vidas desinteressantes! Vais para a China na próxima semana?

Concertos? Digressão pela Ásia? Soberbo, não me queres levar?

Adoraria, mas não posso, a minha patroa só me tem a mim, nas minhas folgas fica ela na loja, coitada é um doce…
Oh que disparate! Ainda não disse em que trabalhava, numa loja de câmbios, daquelas de letreiro amarelo e néon berrantes. Também vendemos cartões telefónicos e ultimamente temos uma máquina de tabaco, um verdadeiro embaraço! Tenho de andar sempre a desbloqueá-la com o comando à distância, também comecei a fumar, deve ter sido de passar tanto tempo a olhá-la…

São sempre quase Libras ou Dólares, estas lojas quase desapareceram com o Euro.

Tenho porque é no Martim Moniz do lado do Mundial. Atendo normalmente cento e cinquenta estrangeiros, são simpáticos na maioria, ingleses, americanos, japoneses, paquistaneses e a nova vaga são os coreanos, sempre de panamás e guias de bolso. Não é nenhum emprego de sonho mas foi o que consegui arranjar…

Estás a ver aquela senhora de azul? A que tem o casaco de tweed e usa o cabelo como a Margaret Thatcher? Fez-me lembrar aquela tua vizinha da Praia das Maçãs, que tinha um cão enorme que adorava roer os estofos do carro, um LAND CRUISER antigo que um dia o marido bêbado espatifou contra o muro de casa. Não parece? Até as bochechas rosadas como um apêndice da face, bolsas “papais” para reservar alimentos mastigados mas não deglutidos. Os teus pais ainda têm a casa?

Oh, é pena que a tenham vendido eu adorava-a. Aqueles pinheiros enormes em redor, a casa da árvore que o teu pai construiu.
Recordas-te da festa em que fizeste doze anos?

Convidaste uns trinta miúdos, a tua mãe montou uma mesa comprida no meio do jardim e escondeu doces no meio dos arbustos. Estavam lá quase todos os teus amigos, ou pelo menos quem naquela altura correspondia à tua noção de amizade. Havia uma rapariga (que pertencia ao grupo das tuas amigas da escola, só essas perfaziam umas dez) que me perseguia por todo o lado. Eu também a perseguia, perseguíamo-nos mutuamente entre as veredas e os pequenos trilhos que os muitos pés desenharam.

Falei-lhe do telhado da tua casa, um telhado que ela nunca vira e que nem sonhava ver. Curiosa seguiu-me para a cabana entre os galhos dos pinheiros, vazia naquele tempo frio de Março (como vês, ainda me lembro do teu aniversário…).

Raquel, Maria, Inês?

Não faço ideia, penso que era mais coquete, ao estilo daqueles bolos ridículos que estão na moda.

Carlota, Beatriz, Maria do Carmo?

Desculpa mas não consigo optar por nenhum. Era loura, com um nariz de pianista, não consigo lembrar-me dos olhos, lembro-me da boca, pequena, incrivelmente pequena.

Carlota? Que seja, neste momento tanto faz, a única certeza que tenho foi que levei a tua amiga ver o telhado e a beijei, mas ela não se importou com isso para meu rejúbilo. Acreditei que fosse fugir em corrida, arranhando-se nos troncos, que queixasse à tua mãe, que instigasse o teu pai, mas no fim, apenas me abraçou rindo. Nessa altura ainda me aterrorizava com a caçadeira do teu pai, não como o objecto em si evidentemente, mas com a ideia do que ele podia fazer com semelhante instrumento. Nesse dia imaginava que quando soubesse da inaudita incursão amorosa, me perseguisse como a um coelho, perfurando-me o crânio enquanto me enrolava numa queda encapada.

O teu pai ainda vai caçar?

Aqueles javalis empalhados deixavam-me aterrado, fugia a correr sempre que atravessava da cozinha para o salão.

Já não? Claro, as hérnias não dão paz a ninguém…

Outra bebida? Se continuo a falar vou beber demais, vou falar até cair ou talvez cair de tanto falar. E tu? Estás tão silenciosa! Também quero ouvir de ti, por certo a tua vida não se limitou ao colégizinho que frequentavas e à casa de fim-de-semana, conta-me por favor…

Tudo só me contento tudo, preciso de recuperar o que nunca perdi, é o nosso reencontro caramba! Talvez a última vez que nos vejamos, de certeza a última antes do fim do ano, se sempre fores para a China…

Coisas simples…

Chegaste a entrar na universidade?

Arquitectura?

Jura?

Inacreditável! Mas aqui em Lisboa?

Porto? Viveste lá e nunca me contactaste?

Pois eu sei, eu sei, os números perdem-se facilmente, não sei o que dá a esses cartões, alguma doença degenerativa, um possível furúnculo do papel, uma verdadeira epidemia como desaparecem.

Não estejas constrangida, eu compreendo, a vida é mesmo assim, escorre pelas frestas do tempo, a culpa é minha por drogar-me demasiado com o passado.

Que horas são?
Dez e meia? Ainda é cedo!

Podemos ficar mais algum tempo, se não te importares…

Viste onde anda o empregado? Nunca mais vem!

Ali? Olhe, desculpe, desculpe, mais uma rodada!

Sim, sim! Que vivo me sinto hoje, tudo me parece mais verdadeiro, livre daquele nevoeiro que nos envolve, sabes do que falo?

(NARRADOR) Os dias são como pinturas a pastel, esboços febris de almas doentes, retratos macilentos de homens, mulheres e até de crianças que nos aparecem montados em papel “vergé” de cabeças cúbicas e balbuciantes.

Cai o pano

 

 

 

CENA II

O bar está vazio, um homem está sentado ao balcão enquanto o empregado arruma os copos. Não aparenta estar embriagado. O empregado sai. Momentos depois entra um homem e senta-se a seu lado. O último cliente da noite.

(HOMEM) Olhe, desculpe a intromissão mas eu penso que eles já não servem mais infelizmente.

(O HOMEM) Não se preocupe não tenho intenções de ser servido.

(HOMEM) Deveras? Não acha estranho, alguém vir a um bar a meio da noite, sentar-se ao balcão e não querer beber? Sinceramente não vejo que outra razão que o traria a um bar vazio à beira de fechar. Por esta hora só costumam aparecer os bêbados e os solitários e o senhor não se parece com nenhum.

(O HOMEM) Interessante, esse binário… Então em que categoria se inclui? Parece cumprir os requisitos. Está sozinho num bar vazio à beira de fechar e não se parece nem com um solitário nem com um alcoólico.

(HOMEM) Na verdade uma coisa não exclui a outra. Estou decerto no quiasma, na fronteira discreta que alia as duas condições. Acontece que por vezes o balanço está mais para um lado que para o outro. Sou hoje mais solitário que bêbado, mas nada impede que amanhã seja o gim, ou o uísque a falar mais alto.

(O HOMEM) Costuma vir cá muitas vezes?

(HOMEM) As suficientes para conhecer a escória que chega antes da alvorada.

(O HOMEM) E faz parte da escória ou não? Era isso que tentava perceber com a minha pergunta anterior.

(HOMEM) Um homem é o produto do seu passado, presente e ambiente que o rodeia. Neste momento estou completamente seguro que este é o meu habitat. Não tenho outro. Fora do gim sou como um peixe fora de água. Mas falemos de si senão é nem bêbado nem solitário, o que veio fazer aqui?

(O HOMEM) O meu irmão é o barman vim resolver algumas assuntos com ele. Dinheiro, heranças, conversa para se ter longe de casa. Dividir a vida dos nossos progenitores em quartis, o desmembrar do passado. Quer um cigarro?

(HOMEM) Obrigado.

NARRADOR: Rádio Macau, Amanhã é sempre longe demais
“Na janela mal fechada, chega a hora do cansaço, o tempo vai se desfiando em anéis de fumo baço.”

Cai o pano

CENA III

Alice Stock está sentada no tocador quando o assessor entra. Todo o cenário é um cliché de um camarim comum. Espelhos com lâmpadas em redor, paredes vermelhas, azáfama de maquilhadores e toda a turbe profissional.

(ASSESSOR) Alice? Recebemos uma chamada de um maluquinho que diz que te conhece. Ricardo Azevedo, o nome diz-te alguma coisa? Ele disse que foi teu amigo quando eras adolescente. Dissemos-lhe que íamos falar contigo e que depois entrávamos em contacto com ele.

(ALICE) Ricardo? Não estou a ver…Espera …sim, já sei quem é… Era o filho de um dos empregados do meu pai, andávamos a correr de volta da fábrica. Chegou a ir passar férias comigo e com os meus pais. Era muito estranho. Tímido, pouco interactivo, era sempre eu que decidia o que íamos fazer. A minha mãe dissertava como é que era possível um rapaz tão novo ter tanta falta de alma. Os meus pais tinham pena dele e traziam-no para a Praia das Maçãs e se me recordo até uma vez para o Algarve. Já te falei dessa casa dos meus pais, não já? Fica na Guia faz muro a do Cliff Richard, que saudades que tenho de ir lá. Mas o que é que ele queria mesmo?

(ASSESSOR) Ele disse que queria encontra-se contigo, que era teu amigo só que não te via há muito tempo nem tinha maneira de te contactar directamente. Disse-nos que nem sabia que cantavas mas que viu uns cartazes na rua e que pensou em tentar falar contigo. Seja como for, agora és tu que decides? Queres ver o gajo ou não? Se quiseres (sabe se lá o que essa cabecinha linda pensa) podemos tentar tratar disso. Damos ao gajo quinze minutos, ele despeja lá o que quer falar contigo, damos-lhe o número da Telma e despachamo-lo com uns posters, o CD, autógrafos e uma fotografia contigo. Deve ser-lhe suficiente para matar as saudades. Se não quiseres, bem ainda mais fácil. Que queres fazer?

(ALICE) Manel até parece que não me conheces… Claro que não, sei lá, pode ser algum rebarbado, já te disse que ele era muito esquisito. Parecia autista ou assim, nesses tipos não dá para confiar. Não, não, se quisesse falar comigo tinha o feito antes, não esperava dez anos. Seja como for o pai dele até foi despedido pelo meu pai. Não, nem pensar que esse tipo de gente não é de confiança

Cai o pano

CENA IV

Narrador: Emílie Zola Germinal
“Dans la plaine rase, sous la nuit sans étoiles, d’une obscurité et d’une épaisseur d’encre, un homme suivait seul la grande route de Marchiennes à Montsou, dix kilomètres de pavé coupant tout droit, à travers les champs de betteraves”

 

No bar de novo, mesas e cadeiras dispostas como numa casa de fados. É terça, dia de música ao vivo. A um canto do palco encontra-se o piano. Jessebelle a cantora encosta-se ao instrumento do lado esquerdo do pianista.
A música começa ainda com o pano caído. O público “chega nos últimos minutos do concerto, enquanto Jesebelle canta “Une Valse a mille temps”. Na plateia a namorada assiste.
O concerto acaba. Palmas e assobios, algumas pessoas levantam-se e cumprimentam Jesebelle. Ela sorri angustiada, está desconfortável, sente-se vazia mas não sabe explicar porquê. A namorada é a última a abordá-la, beija-a. Falam português entre ambas, Maria é portuguesa. Encostam-se ao balcão enquanto o empregado lhes trás as bebidas.
Na plateia os clientes falam em silêncio, o mundo sem som durante a conversa das duas.

(JESEBELLE) Já não consigo fazer mais isto…

(MARIA) Então correu bem, eles adoraram. Eles adoram sempre…

(JESEBELLE) Não, eu não consigo mentir mais. Isto não existe, não sou eu, desculpa dizer-te mas eu quero voltar para França…

(MARIA) Não digas disparates, a tua vida é aqui, aqui comigo. Em França não tens nada, miséria, pobreza e o criminoso do teu irmão.

(JESEBELLE) Pelo menos existo lá, é mau mas sou eu. Nasci assim, filha de vadios e vagabundos, foi o destino, a providência, sei lá, pouco importa mas é a realidade.

(MARIA) Realidade? Como vais sobreviver lá? Que vais fazer lá? Cantar? Prostituir-te, só se for menina. Com o que estudaste…

(JESEBELLE) Não me interessa, me voy.

Jesebelle tenta sair de rompante. Maria agarra pelo braço

(MARIA) Não vais não, desculpa mas não vais. Eu não sou chiclete, não me mastigas e deitas fora. Quem tu pensas que és? E eu não conto? Vives comigo, fodes comigo e depois queres fugir? No final talvez até tivesses a pensar em ir embora sem dizer nada. Cabra…

(JESEBELLE) deixa-se cair sobre o balcão e chora compulsivamente, Maria abraça-a para espanto dalguns espectadores. Um senhor de idade aproxima-se e tenta perceber o que se passa.

(MARIA) Foi uma quebra de tensão, anda muito emocionada. Maria levanta à força a cabeça de Jesbelle do balcão. As lágrimas escorrem-lhe pela face enquanto o seu rosto vira escarlate. O idoso volta ao lugar e Maria continua.

(MARIA) Já viste o escabeche que estás a fazer? Mimada de um raio. Tens vinte e quatro e a mentalidade de uma rapariga de dezasseis anos. Verdade seja dita que também não fizeste nada nesta tua vidinha, agora tens-me a mim, antes era a outra e lá em França como é que te governavas? Se calhar é por isso que queres voltar… Quem te espera, ahn? Diz-me cabra, quem te espera?

(JESEBELLE) Ninguém tu sabes que ninguém! Deixa-me por favor eu só quero ser feliz, consegues perceber? Eu não quero mais sofrimento, só paz.

(MARIA) Deves estar a ficar doente, que conversa é essa? Eu por acaso não quero ser feliz? Não estava tudo bem até há umas semanas? Que foi isto agora? Voltar para França, felicidade o que é que mudou? Diz-me eu exijo uma explicação, depois bem podes ir para onde quiseres que eu já não quero saber…

Jesebelle chora e escorrega até ficar sentada contra o balcão.

(JESEBELLE) Não há nada para explicar, é o que sinto e nada mais…

(MARIA) Puta! Puta! Puta! Não passas de uma puta…

 

CENA V

Narrador:

Ricardo está sentado ao balcão bebendo o uísque e continua a brincar com o isqueiro. É mais forte que ele, um impulso irresistível que não consegue conter. O barman regressa e tenta conversar, estão os dois sozinhos, já todos se foram embora.

(BARMAN) Está à espera de alguém?

(RICARDO) Estava. Não agora, não neste momento, mas estava.

(BARMAN) Porque já não está, tem a certeza que não vem?

(RICARDO) Pelos frutos os conhecereis, já dizia a minha mãe. Quem esperava, já não espero, quem esperava, não conheci os frutos…

O Barman prepara-se para fazer outra pergunta mas Ricardo adianta-se:

(RICARDO) Sabe quem é Alice Stock?

(BARMAN) Não, nunca ouvi falar.

(RICARDO) Não me diga que não conhece o mais recente fenómeno da música pop portuguesa. É só ter o rádio ligado que passa logo a saber quem é!

(BARMAN) Não sei não, juro-lhe!

(RICARDO) Também pouco interessa, era quem eu esperava. Reminiscências do passado, fantasmas do presente, dilemas do futuro.

(BARMAN) Tem ideia porque ela ainda não veio?

(RICARDO) Ela não vem. Eu sabia que ela não vinha, já lhe disse.

O barman prepara-se para falar mas cala-se, Ricardo prossegue monocórdico.

(RICARDO) Não combinámos nada, não havia encontro. Ela nunca me ligou, nem ela ou o agente. Ninguém. Bem esperei mas nada…

(BARMAN) Desculpe mas não o entendo? Esperava ou não esperava a cantora?

(RICARDO) Alguma vez esperou…alguma coisa do acaso? Aguardar que um truque de combinatória resulte certo? Pois bem era o que esperava. Que a Alice Stock entrasse por aquela porta apenas por justiça. Que o mundo se arranjasse por uma vez a meu favor.
Seria um golpe de sorte mas poderia enfrentá-la finalmente.

(BARMAN) Mas então porque espera que ela venha ter consigo por sorte e não vai antes ao seu encontro? Não seria mais fácil e simples? Como pode esperar que alguém com quem não combinou nada, apareça aqui?

 

(RICARDO) Justiça, só por Justiça. Uma máquina que descarrilou recolocada no trilho. Ela recusou receber-me. Só pedia que que entrasse aqui desprevenida, que voltasse a ver a minha cara, que se lembrasse que eu existo, que eu não sou uma memória. Eu existo,percebe?

8(Dirigindo-se para a plateia)

EU EXISTO? Será que existo mesmo? Como sei, como sinto meu Deus? Eu não sinto nada, ninguém sente nada. Porquê? Diga-me porquê? Sente alguma coisa? Só me sobra ódio, raiva e indignação…

 

 

 

————————–FIM—————————

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s