Crónica da vida que passa

Não rias, por favor
Não vivas por favor
A tua integridade
Depende da tua cor
A tua identidade
Depende do sabor
Qual é a vantagem
Meu amor?
Quanto é a margem
Meu amor?
Quanto é que vale
O teu pudor?
Está muito caro
Meu amor…
Vamos a Hiroshima
Com o senhor?
Vamos lá acima
Com o Senhor?
A tua virgindade
Pra lhe afogar a dor
Esquecer-se da idade
Com teu fulgor
Seremos felizes
Meu amor?
Nem que venda a casa
Aquele estupor
Ele nao te amava
Nao senhor
A vida é cara
Meu amor…

Crime de ideias

Por ver-te caído
junto a fogueira
em apneia de vida
e de sensações
Congelei o medo
da culpa e todas
as absolvições
Que o juiz não
Cale
Que o juiz não …
É só a tua vida
a tua natureza
Mãe, eu não
Entre o cá e lá
desta ladeira
Perdi o sentido
Não fui eu, não
Não fui eu, mãe
Levem-no lá
Levem-no por Deus
Não!
Acendam a pira
E assem-no como
ele merece, ouviram?
Bruxo, bruxo
Bruxo, bruxo
Não, não, nan, na

Tomás Silêncio, o inquisidor

Escriturário pálido
Enfraquecido pela luz
Que vontade cega
Te suborna e seduz?
Serão os dividendos pelas
Horas que tu passas,
A riscar das páginas
As palavras embargadas?
Vejo-te a lamber as mãos
Dos homens que idólatras
Esperando em segredo
Uma promoção pelas
Obras que tu castras.
Irás morrer com o trave
Amargo das beatas
De pulmões acesos pelas
palavras que tu matas