Quem não lê

A casa esventrada
Para a rua apertada
A porta de vento
No hall de entrada
A vizinha assustada
Com a polícia danada
Capacetes e escudos
A subir a calçada

Miguel olhou e disse:
Eles vêm aí.
E pegou fogo à secretária

Ciclo

Mais do mesmo
A reputação
De infinito na
Sala de estar
Lágrimas por
Uma vida de
Cómoda velha
Inerte poeira
Modas e vasos
Com flores verdes
Que não existem
Mas que usam sem
Pensar mais nisso
Felicidade
Pura e dura
Como uma dor
Nos rins ou costas.
Uma crónica trágica
De uma sociedade
Palpitante e fria
Um anseio súbito
Por alegria alheia
Que se esvai em
Minutos ocos
De ódio e inveja
Uiva-se à lua hoje
Mas depois…

Para o João

O povo salta
Ao ouvir a tua
Voz vibrante
Do outro lado.
Denunciando
O crime hediondo
Dum outro tempo
Dum outro espaço
Sem maneiras
Sem peneiras
Só astúcia
E desembaraço
Um estilo ateu
Meio alquimista
Dum puto vivo
Neste terraço