O berbere

Cheguei a Ghat ao fim da manhã.
Camelos e comerciantes agitam-se,
Em relinchos e murmúrios prolongados
Sibilados por entre o Ghibli quente.
Grupos de soldados italianos,
Encarniçados, rotos mas alegres,
Embriagam-se em círculos de fumo
Nos bares junto ao portão poente.
Numa esquina num alfabeto
Negro, escuro e enferrujado,
Lê-se: Igherman Pub,
O Bar dos Garamantes.
Corro, entro e sento-me.
Atiro uma lira sobre o balcão,
Mais cinco palavras tamaxeques
Para adensar o meu ar berbere.
Um chá para o caminhante!
Ouve-se o empregado suado
Por entre louças dispersas
Tais constelações errantes.
Soldados outrora conversadores,
Sussurram em alvoroço controlado:
Que faz aqui este paspalho?
Mais um burguês itinerante!
Deve ser um desses proxenetas,
Viciados em ópio e nagrilé,
Um qualquer asco europeu
Degenerado e ambulante.
Quem és tu, donde vens para onde vais?
Grita um oficial ribombante.
Não és bem-vindo nestas paragens,
Não sabes que violaste a lei
Ao entrar nesta cidade?
Estamos em guerra, viandante!
Aqui começa o Regno d’Italia,
Esqueçam-se os camelos
Os berberes e as paisagens,
É D’Victor o poder reinante.
Miro-o acidulo embora sereno,
Ripostando desdenhador:
Semplice… Sou só um viajante!
Envenenam-se-lhe os olhos,
A face e alma; solta-se o ódio
Da boca antes calma e…ARGH!
Vais morrer meu verme irritante!
(Levanto-me)
E avanço de encontro ao cano,
Seis balas no tambor carregado.
Antes de morrer vou contar-te,
Minha jornada, irmão distante:
Atravessei planícies áridas
De desertos fustigantes,
Bebi de oásis imaginários,
Néctares de estrelas rutilantes.
Dormi em tendas nómadas
Por entre chás fumegantes,
Cavalguei encurralado
Pelo azul dos turbantes.
Amigo…
Não há arma, funda ou cutelo,
Que me transforme o espírito,
Ou me corrompa o coração.
Sou tudo isto, neste instante.
Como eu, existimos muitos mais,
Milhões de corações sobre as dunas,
Que destróis com o teu fogo.
Mas sabe o que é interessante?
Podes tirar-nos a areia, a água
E os camelos. Podes destruir
A vida e propagar a morte.
Porém lembra-te desta constante:
Somos Amajagh, Tamajaq, Imuhagh.
Berberes, bárbaros ou Tuaregues,
Nómadas de todos os quadrantes,
Livres e únicos como nunca vais ser.