Antologia

Num lugar qualquer,

Trabalham moribundos

E devoradores de chocolate.

Morto, morri, fui

Carne podre, after combate

Colectem-me os ossos,

No jazigo familiar

Adeus!

Até ao meu regresso,

Disso o Chico,

Ao ir para o Ultramar.

Há vida depois da morte!

Não acredito, doutor!

Não acredite, doutor!

Não o matou, doutor.

Ele morreu, doutor.

Um, dois, três, quatro

Há morte antes da vida.

Um morto-vivo, Manel?

Onde viste um morto-vivo?

Quando fui ao zoo com a escola.

Uma família inteira:

O pai morto-vivo,

A mãe morta-viva,

A irmã morta-viva,

O avô morto-vivo,

O irmão morto-vivo.

Estás a marar, rapaz!

Chico, trás mais dez de angiotensina,

Que o gajo está a marar.

Ele marou da tola, Zé.

O teu pai está louco,

Ouve o que te digo!

Foi-me ao pão em cuecas,

Olha-me para aquela figura.

Até é uma vergonha…

Amo-te Joana

Não digas mentiras…

É o último dia, Joana.

Não gosto de verdades.

Já viste um morto-vivo?

O quê?

Um morto-vivo,

Um Z-O-M-B-I-E.

Tu não és normal…

Ó pai,vamos onde?

À aldeia dos macacos.

Vanessa larga o teu irmão.

Ele é que começou!

Ela é que começou!

Ele começou com dores aqui,

Em seis meses foi para a cova.

Gostas de algo em mim?

A cova das bochechas.

Algo mais?

Eu gostava,

Mas já não me lembro.

Vanessa! Já te avisei!

Vanessa, eu escrevo…

Ó Chico, eu não sei l…

Sabes que dia é hoje?

Deveria saber?

Nem por isso.

Que ideia vir ao zoo,

Logo no nosso aniversário,

Nunca foste romântico,

Verdade seja dita!

Nunca uma flor,

Nunca um beijo,

Nunca uma carícia.

Todo o santo dia:

Vanessa! Trás o comer!

Vanessa, a minha camisa!

Que raio de home’ és tu?

Vanessa! Vais apanhar!

Quero dizer-te uma coisa…

Um segredo. Ouviste?

Algo entre nós, só meu e teu.

Estás pronta? Encosta o ouvido:

O mundo, este mundo,

Está cheio de mortos-vivos.