Persistência da memória

Rumo à fronteira. Um autocarro que se despista numa curva de amónia. O rail cedeu e até a placa com a inscrição speed max foi arrancada. Os nossos corpos rachados, estilhaçados como os vidros da casa abandonada em que nos conhecemos, sem calor interior como a baleia em que se apagou a fogueira. Os meus braços misturados nos teus braços, as tuas pernas misturadas com as pernas do Ian, a cabeça dele no meio de desconhecidos. O meu copo ficou vazio outra vez. O que há para amanhã? Iscas de cebolada ou jaquinzinhos fritos. Um arrepio de frio percorre-me as costas enquanto escrevo, estou molhado do banho enquanto a camisa escorre encharcada de vida. Ao meu lado um vivo chora mal vê o sangue que tem nas mãos e antebraços. Nunca percebi a obsessão com o sangue alheio, deixamos fluir o nosso sem preocupações. Levanta-se cambaleante amachucado como uma folha, pisa a minha mão morta e enterra-me os metacarpos na esponja do banco. Sirenes, sons do além. O chuveiro pinga ininterruptamente. Quando a conheci a lareira da casa estava apagada, nem sequer havia uma. No dia seguinte pegámos fogo à cómoda para nos aquecermos. Dormimos juntos alumiados pela magnânima decadência que incinerámos. Não sei o que vou vestir amanhã. A camisa pinga gotas de chuva de Novembro. Limpei-lhe as lágrimas com a manga. Não chores mais, não há mais nada para além disto. Quatro paredes, tijolos cobertos de estuque, órgãos cobertos de músculos, a verdade coberta de mentiras. Mas dói tanto, se tu soubesses! Como se fosse a única a sofrer, como se mais ninguém sofresse nesse instante. Cento e quarenta e cinco semanas depois, o vivo dizia para o amigo: Tu não sabes o que eu sinto. Esta dor é eterna. Passámos o Natal na casa,juntos e inseparáveis. Perguntei-lhe se podíamos queimar a cama, anuiu. Não precisávamos da armação, não necessitávamos do bicho da madeira, dos arabescos do quinane, lixo secular. A polícia de trânsito tirava fotos ao local, desenhava trajectórias com giz, calculava a altura da queda, perdiam-se em conversões de metros e polegadas. Guarda-me uma de jaquinzinhos que devo aparecer por aqui por volta do meio-dia e meia-hora. Na ambulância o vivo entra em estado de choque,tenta arrancar o colar cervical com as mãos, quer limpar-se do sangue que lhe penetrou na carne e que ainda pensa que é dele, o sangue que era meu e que perdi. A noite de trinta e um foi gélida nesse ano. Acrescentámos mais umas cadeiras à cama que ardia, dançámos com as figuras que se formaram na parede, sombras espectrais, os espíritos aprisionados na mobília durante todo aquele tempo amordaçados a uma única condição: servir e ser usados. Dançámos até à exaustão. A manhã veio e todos os espectros tinham fugido, zarparam e deixaram para trás apenas a cinza e o fumo. Vi-a escrever com os dedos a palavra amanhã na fuligem. De seguida desenhou uma letra e uma outra que apagou com a palma, só a palavra amanhã e um O no meio da cinza e do fumo. A tarde depois do almoço é sempre sonâmbula, quantos mais relatórios terei de rever? Olho em redor e todos parecem encontrar algum sentido na desordem. Datas e nomes misturam-se num concentrado de guias de transporte, um novelo de facturas rebola sobre a secretária. A Margarida cola post-it’s sobre a fotografia do casamento. Olho para a janela em busca de um ponto de escape, esperando que lá longe no horizonte estivesse representado o padrão da manta peruana que resgatámos do guarda-fatos a cheirar a mofo, a casca de ovo em que enclausurávamos a gema dos nossos corpos. Fecham o saco preto depois de jogarem paciências por horas. Relações de braços e troncos, polegares e mãos, a fotografia de um autocarro numa estrada de França, o vitral de uma igreja que um miúdo partiu com uma pedra a caminho da escola.